|
d'après des informations
en Portugais de Carlos Pinto Santos
Amilcar Cabral fait partie de ces hommes
qui ont marqué l'histoire de l'Afrique au delà
même de celle de leur pays. Dans la liste des
célébrités, parfois controversées,
Amilcar a trouvé sa place auprès de Lumumba,
de Nkrumah, de Samory Touré ou de Félix
Houphouet Boigny. C'est tout le monde lusophone africain
(Guinée-Bissau, Cap Vert, Angola, Mozambique
et São Tomé) qui lui doivent leur éveil
vers l'indépendance.
UNE PETITE CHRONOLOGIE
DE LA VIE D'AMILCAR
- 12/09/1924 : Amilcar naît à Bafatá
- 1932: Amilcar émigre vers le Cap Vert
- 1943: Amilcar termine le lycée à Mindelo
(île de São Vicente au Cap Vert)
- 1944: Il est embauché à l'Imprimerie
Nationale à Praia (sur l'île de Santiago
au Cap Vert)
- 1945: Bénéficiant d'une bourse d'étude,
il intègre l'école d'agronomie à
Lisbonne (Portugal)
- 1950: Il termine ses études et travaille à
la station agronomique de Santarém
- 1952: RETOUR A BISSAU : il y travaille au sein de
la Société Agricole et Forestière
de Guinée
- 1955: Le gouverneur le pousse à partir travailler
en Angola. Il y fréquentera les indépendantistes
MPLA
- 1956: Création à Bissau du PAIGC (Parti
Africain de l'Indépendance de la Guinée
et du Cap Vert)
- 1960: Le PAIGC ouvre un bureau à Conakry (Guinée
francophone indépendante depuis à peine
un an)
- 1960: La Chine populaire (communiste) assure la formation
des cadres du PAIGC
- 1961: Le Maroc ouvre ses portes aux membres du parti
- 23/01/1963 : Début de la lutte armée
avec l'attaque du cantonnement de Tite (dans le Sud
de la Guinée)
- 07/1963 : le PAIGC ouvre un front de combat au Nord
- 01/06/1970 : Le pape Paul VI accorde une audience
aux trois leader indépendantistes des colonies
portugaises (Guinée/Cap Vert, Angola, Mozambique),
Amílcar Cabral, Agostinho Neto et Marcelino dos
Santos
- 22/11/1970 : Opération "Mar Verde",
première tentative d'assassinat dirigée
contre Amilcar. Elle est commanditée par le gouverneur
portugais de Bissau et commandée par Alpoim Calvão.
Elle se solde par un échec
- 20/01/1973 : Amílcar Cabral est assassiné
à Conakry
NOITE DE FACAS LONGAS EM CONACRI
O
cenário: uma casa branca, isolada, de um só
piso, um largo terreiro à volta, uma enorme mangueira
em frente da casa, um telheiro que serve de garagem;
em Conacri, capital da República da Guiné,
de que é Presidente Séku Turé.
O tempo: três da madrugada do dia 20 de Janeiro
de 1973. A acção: um carro, um Volkswagen,
que o condutor arruma no telheiro. Dois faróis
projectam a luz para os ocupantes do veículo
que são Amílcar Cabral e a sua segunda
mulher, Ana Maria. Uma voz ríspida vem da noite
e ordena que amarrem Amílcar. Este resiste. Não
deixa que o atem. O comandante do assalto dispara. Atinge-o
no fígado. Amílcar, sentado no chão,
propõe que conversem. A resposta é uma
rajada de metralhadora que acerta na cabeça do
fundador do PAIGC. A morte é imediata. Os autores
do atentado: Inocêncio Kani, que dispara primeiro,
um veterano da guerrilha, ex-comandante da Marinha do
PAIGC; membros do Partido, todos guineenses.
Noutros pontos da cidade, onde se alojam
os cerca de meio milhar de combatentes do PAIGC, grupos
pertencentes à revolta aprisionam os restantes
dirigentes sediados em Conacri: Aristides Pereira, Vasco
Cabral, José Araújo, entre outros. São
todos transportados para uma vedeta que zarpa para Bissau.
Seku Turé recebe no palácio presidencial,
a 21 de Janeiro, os cabecilhas da rebelião. Tudo
leva a crer que apoia os assassinos de Cabral. Mas,
surpresa: o Presidente da Guiné-Conacri não
dá cobertura. Manda prender os conspiradores,
ordena ao Exército que detenha todos os elementos
do PAIGC, intercepta, em pleno mar, o barco que leva
os prisioneiros para Bissau. Uma comissão internacional,
indigitada por Séku Turé, elabora um inquérito
sobre os acontecimentos. A pouco e pouco, os antigos
dirigentes do PAIGC são libertados. O Conselho
Superior de Luta do Partido decide ir mais longe na
investigação.
A partir daí, uma teia de denúncias,
traições e intrigas vai acelerar as conclusões.
Cerca de uma centena de membros do Partido são
indiciados, julgados, fuzilados. Entre eles, está
a maioria dos culpados, mas estão, também,
muitos inocentes. Era inevitável que assim acontecesse.
A morte de Amílcar Cabral, o chefe quase incontestado,
desencadeia ódios e paixões e, nesse ambiente,
difícil seria que a justiça fosse completamente
isenta. Para mais, num clima de guerra contra o colonialismo
português que ninguém quer abrandar.
De facto, o Exército Português
nada lucra com o assassínio. A guerrilha intensifica
a acção. Em Março de 1973, dispõe
dos mísseis terra-ar "Stella" que retiram
a supremacia aérea às forças portuguesas.
Em Maio, Spínola, governador da Guiné,
avisa o ministro Silva Cunha: "Aproximamo-nos,
cada vez mais, da contingência do colapso militar".
A 24 de Setembro, nas matas de Madina do Boé,
o PAIGC declara, unilateralmente, a independência
da Guiné-Bissau.
LARBAC, POETA E CONTISTA
Juvenal Cabral, à luz difusa
de um candeeiro, escreve na sua casa em Cabo Verde um
memorando a Vieira Machado, ministro das Colónias
de Salazar.
Está-se
em Dezembro de 1941 e o ministro visita a Praia. O documento
chegará às mãos do membro do Governo
de Lisboa. Que, muito provavelmente, não o leu.
Que lhe importa as opiniões de um obscuro professor
primário cabo-verdiano?
No entanto, o documento é significativo. Preocupado
com a seca e a fome no seu arquipélago, Juvenal
propõe ao ministro algumas políticas a
seguir para minorar os males: pesquisa e captação
de águas, arborização intensiva,
protecção à agricultura, supressão
do imposto sobre as terras, criação de
um crédito agrícola, protecção
ao pequeno funcionário.
Seu filho, Amílcar, tem 17 anos e frequenta
o liceu no Mindelo. Não se sente ainda com capacidade
para auxiliar o pai na cruzada em favor de Cabo Verde.
Mas já conhece todos os problemas que afectam
a sua terra, porque o pai, desde cedo, o consciencializa.
Todavia, Amílcar é, nessa altura, Larbac.
Assim assina os poemas de amor que escreve: Quando Cupido
acerta no alvo, Devaneios, Arte de Minerva, entre outros.
Os temas denotam influências clássicas.
Os poetas que conhece do liceu são os inspiradores:
Gonçalves Crespo, Guerra Junqueiro, Casimiro
de Abreu, por exemplo. O lirismo de Amílcar (Larbac
é anagrama de Cabral) não se evidencia
pela originalidade. Revela, porém, a sua sensibilidade
amorosa. Esse romantismo passa para a sua prosa de adolescente,
os contos, notas e comentários onde se vislumbra
já um seguro conhecimento e um desejo de participação
no universo insular em que vive. Um pouco mais tarde,
em Lisboa, essas preocupações irão
agudizar-se.
GUERRA, SECAS E FOME
"Ele nasceu com a política
na cabeça. Era filho de político. Juvenal
falava-lhe de todas as coisas". São palavras,
em 1976, um ano antes da sua morte, de Dona Iva Pinhel
Évora, mãe de Amílcar, mulher de
Juvenal Lopes Cabral.
Memórias e Reflexões, editado pelo autor,
em 1947, é um curioso livro do pai de Amílcar
em que rememora a sua vida, debate os problemas da época
e dos meios em que viveu, anota factos e episódios
que clarificam a História e esclarecem as origens
sociais do futuro líder do PAIGC.
Juvenal nasce em Cabo Verde em 1889. Um dos avós
é grande proprietário rural. Mas a fortuna
desaparece depressa, perante as catástrofes naturais
das ilhas. O outro avô, o paterno, homem culto,
também com algumas posses, dá ao neto
o nome de Juvenal, em homenagem ao poeta latino. O rapaz
não conhece o pai, morto tragicamente quando
tem dois meses. A criança é entregue aos
cuidados do avô e, mais tarde, da madrinha, Simoa
Borges, que lhe irá financiar os estudos. Primeiro,
em Portugal, no Seminário de Viseu. Estava destinado
à vida eclesiástica. Mas uma grande seca
no princípio do século torna impossível
a manutenção de Juvenal na metrópole.
Volta ao arquipélago. Em 1906, está a
frequentar o seminário de S. Nicolau. Aos dezoito
anos, abandona os estudos e embarca para a Guiné
à procura de emprego. É funcionário
em Bolama, depois professor sem diploma.
Vive em Bafatá quando, a 12 de Setembro de 1924,
nasce Amílcar Cabral. Que, na certidão
de nascimento, surge com o nome de Hamílcar,
homenagem prestada pelo pai ao célebre cartaginês
Hamílcar Barca.
Mas, em 1932, morre a madrinha Simoa que lhe deixa
algumas propriedades rurais em Cabo Verde. Juvenal,
Iva e Amílcar regressam às ilhas. É
aí que a família vive o período
difícil da Segunda Guerra Mundial. Salazar sobe
os custos de vida, as mercadorias rareiam. Em 1940,
uma calamitosa seca provoca a fome. Morrem mais de 20
mil cabo-verdianos. E, entre 1942 e 1948, nova crise
vai fazer 30 mil vítimas.
Entretanto, nas ilhas, há um forte contingente
militar de tropas portuguesas, o que cria inúmeros
conflitos com a população e acentua o
racismo e o colonialismo. Para além da fome e
da seca não há, praticamente, serviços
de assistência pública. A emigração
para S. Tomé e Angola e, posteriormente, para
a América despovoa as ilhas.
Nunca se calou Juvenal. Em 1940, dirige ao governador
um memorando em que, baseado em dados históricos,
prediz uma grande seca para os anos seguintes (o que
se confirmou). Surgirá, depois, o documento enviado
ao ministro das Colónias. (Este terrível
período de calamidades em Cabo Verde é
magistralmente descrito no romance de Manuel Ferreira,
Hora di Bai).
Neste contexto, Amílcar Cabral passa a infância
e a adolescência. Se o pai lhe aponta um exemplo
de consciência e actuação, dentro
das limitações legais que o fascismo de
Salazar permite, a mãe, Iva Évora, é,
para o jovem, o exemplo da ternura, da protecção
e do trabalho. Presa todo o dia à máquina
de costura, Iva vai contribuindo para que a família
vença, da melhor maneira, as crises por que passam.
E, mais tarde, sem largar a costura, empregar-se-á
numa fábrica de conserva de peixe. A mãe
e a sua capacidade de sacrifício há-de
servir a Amílcar de testemunho de luta aos jovens
combatentes do PAIGC.
Aos 20 anos, Amílcar tem absoluta consciência
das degradantes condições de vida do povo
cabo-verdiano. Imbui-o um idealismo político,
a certeza dos amanhãs que cantam, a inevitável
transformação do mundo, a nova ordem emergente
do caos pós-guerra.
Aluno brilhante, 17 valores numa escala de 18, Amílcar
conclui o curso liceal. Vai para a Praia onde se emprega
como aspirante na Imprensa Nacional, enquanto aguarda
a concessão de uma bolsa para prosseguir os estudos.
Finalmente, em 1945, embarca para Lisboa.
A escolha da sua formação universitária,
em que terá, também, havido cumplicidade
do pai, é óbvia: será engenheiro
agrónomo.
ANTI-COLONIALISTA EM LISBOA
Amílcar Cabral chega a Portugal
em 1945. É o ano da grande esperança para
os democratas portugueses, depressa desfeita quando
Salazar garante a condescendência dos vencedores
da Segunda Guerra Mundial e mantém, inalterável
e apoiado, o regime de ditadura.
A primeira mulher de Amílcar, Maria Helena de
Athayde Vilhena Rodrigues, foi sua colega no Instituto
de Agronomia. Narrou assim a Mário de Andrade
o conhecimento do futuro marido, de quem viria a ter
duas filhas, Iva Maria e Ana Luísa:
"Conheci Amílcar no primeiro ano de Agronomia,
em 1945. As aulas tinham começado em Novembro,
ele chegou em Dezembro (...) Eu não pertencia
ao seu grupo, mas lembro-me perfeitamente de o ver entre
os outros colegas. Como ele era o único negro,
notava-se bem... Amílcar não fizera o
exame de admissão à Universidade (...)
toda a gente falava dele, elogiava a sua inteligência
e ele, para mais, era simpático e descontraído.
No que respeita às suas actividades políticas,
lembro-me que os meus camaradas recolhiam assinaturas
de adesão aos movimentos democráticos.
E Amílcar participava activamente nesses comités
de estudantes antifascistas. Aquando das assembleias
era ele quem dirigia as discussões porque se
exprimia muito bem (...) No princípio do terceiro
ano, em Outubro de 1948, pertencemos à mesma
turma, a dos únicos vinte e cinco estudantes
que tinham passado nos exames".
Condiscípulos e amigos recordam Amílcar
como um indivíduo de dinamismo contagiante, grande
sentido de humor, com enorme capacidade de criar amizades.
Sedutor, atrai afectos femininos com facilidade.
"Era o mais bem vestido e aprumado de todos nós",
lembra seu amigo, o jornalista Carlos Veiga Pereira.
"O meu irmão conseguia fazer amizades em
todo lado", diz Luís Cabral. "Foi pela
simpatia de Amílcar — revelou em entrevista
ao "Diário Popular" o primeiro presidente
da República da Guiné-Bissau — que
os soviéticos nos forneceram os mísseis
com que controlámos a aviação portuguesa.
O magnata italiano Perelli era seu amigo e deu-nos as
fardas de oficiais que usávamos. Tudo por amizade
e simpatia".
O estudo, a militância, os namoros, ainda lhe
deixam tempo para se dedicar ao seu desporto preferido:
o futebol.
E, segundo as crónicas, caso o tivesse querido
poderia ter feito carreira. De tal maneira dá
nas vistas na equipa de Agronomia que o Benfica chega
a convidá-lo para ingressar no clube. Mas Amílcar
declina a proposta e mantém-se apenas nos "pelados"
universitários.
Durante os anos de estudo um irresistível apelo
o toma, bem como a outros estudantes negros: era necessário
o regresso a África. Não só pela
família que ama profundamente, mas porque "milhões
de indivíduos têm necessidade da minha
contribuição na luta difícil que
travam contra a natureza e os próprios homens
(...) Lá, em África, apesar das cidades
modernas e belas da costa, há ainda milhares
de seres humanos que vivem nas mais profundas trevas".
Em 1949, escreverá: "Vivo intensamente a
vida e dela extraí experiências que me
deram uma direcção, uma via que devo seguir,
sejam quais forem as perdas pessoais que isso me ocasione.
Eis a razão de ser da minha vida".
Esta vida a que se refere, partilha-a, em Lisboa, no
Instituto de Agronomia, na Casa dos Estudantes do Império
e nos livros que lhe abrem os horizontes de compreensão
do mundo do seu tempo. Entre esses livros um será
determinante: a Anthologie de la nouvelle poésie
négre et malgache, organizada por Léopold
Sédar Senghor. Este livro traz-lhe a certeza
que "o negro está a despertar em todo o
mundo". Teoriza sobre o cabo-verdiano — o
homem resultante da fusão dos primeiros habitantes
do arquipélago, brancos e negros. Já então
reconhece que o número de mestiços é
seis vezes superior ao dos brancos e três vezes
ao dos negros — do ponto de vista psíquico
há um "espírito cabo-verdiano",
existe a cabo-verdianidade. Esta profissão de
fé tem de ser harmonizada com a militância.
No quinto ano do curso, Amílcar volta ao arquipélago
para passar as férias grandes. A sua especialidade
técnica - a erosão dos solos - e a cultura
geral de que dispõe, quer transmiti-las e ensiná-las
aos cabo-verdianos. Na Praia, pronuncia, através
do Rádio Clube de Cabo Verde, várias palestras
sobre as características do solo das ilhas. Apesar
das dificuldades, reconhece que a agricultura é
a base da economia de Cabo Verde. Para tal, é
necessário elucidar, esclarecer, consciencializar
o homem da rua. Amílcar coloca o problema da
elite na sociedade. É preciso criar uma vanguarda
intelectual que leve ao cabo-verdiano anónimo
toda a informação sobre os seus problemas
tradicionais. Como dirá: "Os quadros devem
esclarecer aqueles que vivem na ignorância".
Esta informação deve ultrapassar os limites
de Cabo Verde e tornar-se uma informação
global que se alargue a todo o mundo. Eis a sua tarefa
de militante: consciencializar os cabo-verdianos.
Mas as autoridades portuguesas rapidamente lhe proíbem
o acesso à rádio. Como lhe proíbem
que ministre um curso nocturno na Escola Central da
Praia.
"Dar a conhecer Cabo Verde aos cabo-verdianos"
corresponde ao que acontece em Angola: "Partamos
à descoberta de Angola" é a divisa
de um grupo de jovens intelectuais em torno do poeta
Viriato da Cruz.
De novo em Lisboa, Amílcar firma os laços
que o unem a outros estudantes originários das
colónias portuguesas. Trata-se de um grupo de
jovens, provenientes da pequena burguesia urbana africana,
todos conscientes da revolta contra o colonialismo e
detentores da vantagem de possuírem instrução
e cultura. Militam nas organizações da
juventude democrática portuguesa, o MUD Juvenil,
o Movimento para a Paz. Com uma bandeira que os diversifica
dos europeus: a reafricanização dos espíritos,
diz Amílcar Cabral. Esta reprocura da identidade
leva à criação, em casa da família
Espírito Santo (de que é figura proeminente
a santomense Alda Espírito Santo), de um Centro
de Estudos Africanos. Ali se discutem, apesar das incursões
da PIDE, algumas das questões mais prementes
da África sob a domínio português.
Amílcar tem nesses debates uma participação
decisiva.
O PAIGC E O INÍCIO DA LUTA ARMADA
Após terminar o curso, em 1950,
faz estágio na Estação Agronómica
de Santarém. Pouco depois, falece Juvenal Cabral.
Em 1952, Amílcar regressa a África, a
Bissau, contratado pelos Serviços Agrícolas
e Florestais da Guiné Portuguesa.
Aos 28 anos desembarca em Bissau um engenheiro agrónomo
que tem em mira outros fins que não só
os da sua profissão (onde, aliás, será
sempre de grande competência). O principal desses
fins: consciencializar as massas populares guineenses.
Como escreverá na comunicação aos
quadros, em plena luta de libertação,
em 1969: "Não foi por acaso que viemos para
a Guiné. Nenhuma necessidade material determinava
o nosso regresso ao país natal. Tudo foi calculado,
passo a passo. Tínhamos enormes possibilidades
de trabalhar nas outras colónias portuguesas
e mesmo em Portugal. Abandonámos um bom lugar
de investigador na Estação Agronómica
para virmos para um lugar de engenheiro de segunda classe
na Guiné (...) Isto obedeceu a um cálculo,
a um objectivo, à ideia de fazer qualquer coisa,
de contribuir para o levantamento do povo, para lutar
contra os portugueses. É isso que temos feito
desde o primeiro dia em que chegámos à
Guiné".
O "Engenheiro", como lhe chamarão
os compatriotas, está na melhor das posições
para levar a cabo a tarefa de consciencialização.
No posto agrícola de Pessubé, que dirige,
contacta com os trabalhadores rurais entre os quais
cabo-verdianos. É difícil a unidade entre
estes e os guineenses para a constituição
de uma luta comum. Será difícil até
ao fim, apesar de alguns cabo-verdianos (Aristides Pereira,
Fernando Fortes, Abílio Duarte, entre outros)
se unirem à sua volta. O trabalho político
segue a par da actividade profissional. Encarregado
da planificação e execução
do recenseamento agrícola da Guiné, o
relatório que elabora continua a ser hoje o primeiro
dado valorizável para o conhecimento da agricultura
guineense.
A princípio, Amílcar Cabral procura agir
na legalidade. Redige os estatutos de um Clube desportivo
e cultural ao qual podem aderir todos os guineenses.
As autoridades portuguesas não o autorizarão
a funcionar porque a maioria dos signatários
não possui bilhete de identidade.
Em 1955, o governador Melo e Alvim obriga Cabral a
deixar a Guiné, embora lhe permita voltar uma
vez por ano, por razões familiares.
1955 é o ano da Conferência de Bandung
que assinala o nascimento do Movimento dos Não-Alinhados,
do final da primeira guerra de independência do
Vietname, da passagem à luta armada da FNL argelina.
E Amílcar Cabral transferido para Angola, trabalha
em Cassequel, como engenheiro... e tomando contacto
activo com os fundadores do MPLA, ao qual se liga, desde
início.
Numa das suas passagens por Bissau, a 19 de Setembro
de 1959, Amílcar Cabral, Aristides Pereira, Luís
Cabral, Júlio de Almeida, Fernando Fortes e Elisée
Turpin criam o Partido Africano da Independência/União
dos Povos da Guiné e Cabo Verde (PAIGC). Obviamente,
um partido clandestino, que só deixará
de o ser quatro anos mais tarde, quando instalar a sua
delegação exterior em Conacri.
Nesse período, a actividade de Amílcar
Cabral é esgotante. Continuando os seus estudos
fitossanitários e agrológicos, viaja frequentemente
entre Portugal, Angola e Guiné.
Em Novembro de 1957 participa em Paris numa reunião
para o desenvolvimento da luta contra o colonialismo
português, mantém contactos com os anti-colonialistas
em Lisboa, está em Accra num encontro pan-africano
e vai a caminho de Luanda quando ocorre o massacre de
Pidjiguiti. Em Janeiro de 1960 vai à II Conferência
dos povos africanos, em Tunis, em Maio está em
Conacri. Ainda neste ano, em Londres, denuncia numa
conferência internacional, pela primeira vez,
o colonialismo português. Mas aí, como
durante todos os anos de luta, sublinha com ênfase
não estar contra o povo português. O seu
combate é, em exclusivo, contra o sistema colonial.
Hoje, as investigações históricas
e os depoimentos de muitos intervenientes da época
mostram que líder do PAIGC sempre se disponibilizou
para negociações com o Governo português,
nunca aceites pelo regime da ditadura.
Entre 1960 e 1962, o PAIGC actua a partir da República
da Guiné. Essa actuação desenvolve-se
em três aspectos: formar militantes e quadros
para a difusão do Partido no interior da Guiné,
garantir o apoio dos países limítrofes
(o que foi tarefa complicada porque a República
da Guiné pretendia a utilização
dos guineenses de Amílcar Cabral na sua própria
política e porque o Senegal se manifestou hostil
durante seis anos) e, finalmente, a obtenção
do apoio internacional.
É a República Popular da China quem dá
o primeiro passo, recebendo, em 1960, Amílcar
Cabral e alguns quadros que ali ficarão preparando
a guerrilha e a formação ideológica.
Em 1961 o Reino de Marrocos concede-lhe idêntico
apoio.
Em 1962, desencadeia-se a luta armada contra o Estado
Português. Tinham passado 17 anos desde que o
filho de Juvenal Cabral chegara a Lisboa para frequentar
a Universidade.
UMA TEIA DE INTERESSES
Em reportagem publicada no Expresso,
a 16 de Janeiro de 1993, José Pedro Castanheira
fornece uma série de dados sobre a morte de Amílcar
Cabral, que, três anos depois aprofunda no livro
"Quem Mandou Matar Amílcar Cabral?".
É possível crer em vários factos.
A política colonial portuguesa, dividindo para
reinar, criara uma diferenciação entre
cabo-verdianos e guineenses. Os primeiros, mestiços
na sua grande maioria e mais escolarizados, são
os preferidos da administração do Estado
Novo. Desempenham os cargos menos desqualificados, usufruem
de um tratamento preferencial. Quando se constitui o
PAIGC, os quadros dirigentes são cabo-verdianos,
os combatentes são guineenses. O próprio
Amílcar Cabral, embora nascido na Guiné,
é considerado cabo-verdiano. As tensões,
os conflitos no interior do PAIGC existiram sempre.
Em 1973, a guerra de libertação nacional
encaminha-se para a vitória. Os dirigentes políticos
continuam a ser cabo-verdianos. É provável
que a proximidade do êxito extremasse a confrontação
no Partido.
Séku Turé que, desde 1958, fora um líder
africano de grande prestígio está em perda
de influência. Por seu turno, Amílcar Cabral
é uma personalidade que se evidencia na cena
africana e internacional, reunindo apoios que vão
da China e dos regimes comunistas, aos países
nórdicos. O grande sonho de Turé de anexar
a Guiné-Bissau para criar a "Grande Guiné"
está em perigo. É bem provável
que tivesses dado sinais de concordância aos revoltosos
- todos guineenses - para consumarem o crime. Cabral
sairia de cena, o PAIGC desmembrar-se-ia, passando,
na prática, para o controlo de Turé. (Em
Maio de 1974, Leopold Senghor, Presidente do Senegal,
não hesita em afirmar ao coronel Carlos Fabião
e ao embaixador Nunes Barata ter sido Séku Turé
o instigador do assassínio de Amílcar
Cabral).
Por fim, a PIDE/DGS. Desde muito, pelo menos desde
1967, a organização policial portuguesa
procurava matar Cabral. Alguns guerrilheiros prisioneiros
foram manobrados para colaborarem com a polícia
política. Ficou provado em relação
a alguns dos intervenientes no atentado. Tudo leva a
crer que, em medida desconhecida, a PIDE não
foi alheia a toda a trama.
Testemunhos da época revelam também que
Amílcar Cabral tinha consciência que poderia
ser traído pelos companheiros de luta. Afirmara
algumas vezes: "se alguém me há-de
fazer mal, é quem está aqui entre nós.
Ninguém mais pode estragar o PAIGC. Só
nós próprios".
LES MORTS D'AMÍLCAR CABRAL
Amílcar Cabral fut enterré
au cimetière de Conakry. S'il a disparu de la
scène politique le jour de son assassinat, son
action a été reprise par plusieurs dirigeants
africains et son héritage à conduit à
l'indépendance des cinq anciennes colonies portugaise.
Il fait toujours figure aujourd'hui
d'un homme qui a vécu en cohérence avec
ses idées, sans aucune compromission pour un
idéal d'unité africaine qui commençait
par celui de la Guinée et du Cap Vert.
Vítima de um ajuste de contas
que não merecia, Amílcar Cabral teve a
segunda morte no golpe de Estado de Nino Vieira de 14
de Novembro de 1980 que arrasou o seu grande sonho de
fazer da Guiné e de Cabo Verde um único
país, ou, pelo menos, uma união de Estados
capaz de se impor aos desígnios hegemónicos
dos governos de Dacar e Conacri, e desmembrou o PAIGC
por ele fundado.
Morreu com a ostentação,
a corrupção e a sanha sanguinária
na resolução dos diferendos políticos
onde se deixaram atolar muitos dos dirigentes guineenses.
Morreu com a miséria, a doença
e a fome que dizima o seu povo vinte anos depois da
independência admiravelmente conquistada nas matas
de Madina do Boé.
Morreu agora outra vez quando velhos
camaradas de armas — os seus antigos camaradas
— se digladiaram numa luta fratricida infligindo
à Guiné-Bissau uma destruição
terrivelmente superior à provocada por onze anos
de guerra colonial vendendo, provavelmente, a soberania
nacional numa patética tentativa de conservar
a bebedeira do poder.
ILHA
un poème d'Amílcar
Cabral (Praia, Cap Vert, 1945)
Tu vives — mãe adormecida
—
nua e esquecida,
seca,
fustigada pelos ventos,
ao som de músicas sem música
das águas que nos prendem…
Ilha:
teus montes e teus vales
não sentiram passar os tempos
e ficaram no mundo dos teus sonhos
— os sonhos dos teus filhos —
a clamar aos ventos que passam,
e às aves que voam, livres,
as tuas ânsias!
Ilha:
colina sem fim de terra vermelha
— terra dura —
rochas escarpadas tapando os horizontes,
mas aos quatro ventos prendendo as nossas
ânsias!
NB : Amilcar Cabral est aussi l'auteur
de l'hymne
national de Guinée Bissau |
|
| Vos contributions et commentaires sur le contenu de
cette page |
|
| Aucune contribution ni aucun commentaire n'a été
effectué sur cette page. |
|